sexta-feira, 4 de março de 2011

4 cidades, 4 países e muitas delícias gastronômicas!


Viagem feita em abril/maio de 2010! Recordar (e compartilhar) também é viver! (Post rascunhado em junho de 2010 e nascido 9 meses depois...)

Em Lisboa...

Entrada na Casa do Alentejo:


acompanhada de vinho alentejano...

E o prato principal: carne de porco!


E no dia seguinte, antes do Oceanário, mais carne de porco: costelinha, aliás, entrecosto!


No jantar, Fado! Restaurante Mesa de Frades!

e petiscos divinos!


Patanisca (mistura cremosa de bolinho com omelete de bacalhau) e "arroz de feijão"! Sem noção!

Dispensa apresentação e comentários!

Com canela e açúcar de confeiteiro! Eu provei de todas as formas... rsrsrs!

Caldo verde!

Bacalhau fresco!

Na deriva...

Iogurte enquanto tentávamos embarcar para Londres...

Em Londres...

Almoço na grama como os ingleses, em frente a Tate Modern!


No Pub, tomando uma pint!

Para forrar a barriga no Pub: Pie com ervilhas e purê...

e fish and chips!

Em plena Londres, um bar cubano...

com direito a petiscos...

e paella!

Em Paris...

Macarrons e mil tentações de uma simples boulangerie...

Tortinha com franboesas e groselhas frescas! Hummmmm....

Macarron!


Um restaurante muito legal: Chartier!

Aceitamos a sugestão do chef e optamos pelo vinho do momento! Rsrsrs...




Truta com amêndoas!

Carne cozida! Pode?


Macarron de framboesa! Pecado!!!



Melhor salada da minha vida!!!


A escolha do marido lindo!


Peixe!

Quem diria? Choriço!!!! Divino!



Croissant! De verdade!

Que salada! com este queijo derretendo...

Rosé...

Quiche Lorraine para despedir de Paris!

Barcelona...

No C3 (Café do CCCB - Centro de Cultura Contemporanea de Barcelona), menu do dia (sempre com duas opções, incluindo entrada, prato e sobremesa!):
Saladoca do marido lindo...

e a minha!

Peixe para ele...

Frango para mim!

Mercado La Boqueria!
É de enlouquecer!

Sanduba de linguiça e pimentões (entrepans de butifarra e pimentos): coisa de louco!

No hotel...

Almoço ao ar livre! No IPOSA! As mesas ficam na praça em frente ao restaurante...




Na Champanheria da Barceloneta... Cava rose com bocadilho de ramon!

Na Euskal Etxea, uma taberna que serve tapas bascos, espécie de canapés deliciosos... Todos ficam sobre o balcão e você se serve à vontade. Cada um vem com um palitinho (e tem o mesmo preço) e sua conta é dada de acordo com o número de palitinhos final que você tem no prato!

Repeteco do menu do dia no C3!





Churros de chocolate! Apesar da cara boa, confesso que a nossa escolha do local não foi muito acertada... :(


Tapas no Jaica!

Foi uma comilança maravilhosa esta viagem! Alguém duvida???

PS: maior decepção: Boeuf Bourguignon! Acho foi uma conjunção de fatores: um restaurante bem turístico e um cozinheiro que nem provava o que servia! Simplesmente não tinha sal, nem nenhum outro tempero! Horrível!!! Acho que já tenho um motivo para voltar a Paris! ;)Polyanna= tudo tem o seu lado bom!

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O que anda acontecendo aqui?...

2010 acabou, 2011 já vai longe e a última postagem deste blog foi de outubro! E diga-se de passagem as últimas postagens aqui foram bem sem-vergonha...

O pior é que não tem me faltado uma vontade enorme de postar, um monte de coisas, tantos assuntos diferentes... Só que a preguiça e a falta de organização tem ganhado fácil da vontade!

Vou tentar explicar, para quem eventualmente passa por aqui (se é que alguém ainda passa) e para mim mesma o que esta acontecendo aqui...

Este espaço é muito meu, é tão íntimo, tão particular, que acaba refletindo a "dona"... Eu tenho, digamos, um probleminha de organização (o diminutivo eu posso usar, já que eu sou a "dona"!), uma pequena dificuldade de organizar meu tempo e coordenar as atividades... especialmente eu tenho muita facilidade para começar as coisas e muita dificuldade para termina-las!

É claro que na "vida real", as pessoas ou as ciscunstâncias acabam me obrigando a dar um fim no que foi começado. Já na "vida virtual", neste cantinho tão e só meu... aqui a coisa se complica e eu acabo perdendo o controle da situação... hoje eu verifiquei: existem 35 rascunhos de posts já digitados no editor do blog!!! 35 posts que eu começei e não terminei! Só da viagem para Europa são 4, recheados de lindas fotos! Postagens de livros que andei lendo são mais de 10! Receitas culinárias também tem muitas! E outros tantos que já até perderam o sentido: natal, vigem a Sampa, coisas dos sobrinhos, etc e tal!

Mas eu estou com muitas saudades de postar e por isso resolvi tentar mais uma vez recomeçar e não deixar tudo pelo meio do caminho...

Vejamos no que vai dar...

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Eu não vou, mas ele vai...

Quem pensa que a cozinha da casa está as moscas só porque eu não tenho me aventurado por ela muito se engana...




Sábado desses, quando cheguei em casa por volta de 1h da tarde, senti ainda na rua um cheiro bom, de um tempero conhecido... Torci para o cheiro vir da minha casa. Não deu outra: o marido lindo tinha preparado frango na cerveja preta!

Divino! E ele disse que resolveu fazer o almoço só porque lembrou que na geladeira tinha um pedaço de bacon precisando ser consumido...


Para a salada: 3 tipos de alface (crespa, americana e roxa) + rúcula + agrião + tomatinho cereja. Temperada com: molho de balsâmico, mostarda e mel + blend de linhaça e gergelim branco e preto.
Tudo muito simples... E simplesmente delicioso!

Dica: Para casa onde moram apenas 2 pessoas que raramente fazem as refeições em casa, vale a pena comprar salada de folhas pronta no supermercado. Não que seja barato, mas é a possibilidade de se comer folhas variadas, sem que boa parte estrague na geladeira (eu chamo isso de "o caro que sai barato"). Uma bandeja que é bem grandinha custa em torno de R$4, vem com umas cinco variedades de folhas e rende umas 4 porções (maiores do que esta da foto). Se eu comprar 3 pés de alface -cada 1 de um tipo- e um molho de rúcula ou agrião vou pagar beeeeem mais que isto, consumir praticamento o mesmo número de vezes e jogar fora (de coração partido) uns 80%...

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Sol, praia e vinho branco!


Em janeiro (de 2009) viajamos para a praia! Cabo Frio!

(E eu preparei este post logo que voltamos, só esqueci de anexar as fotos e publicar! Hoje estava dando uma geral nos rascunhos do blog e me deparei com isto! Antes tarde do que nunca...)

Uma semana para recarregar as energias!

E como o programa foi bem adulto, resolvemos comprar alguns vinhos brancos para degustar e harmonizar com receitas que em geral não temos facilidade para fazer: peixes e camarões!

Levei receitas escolhidas a dedo, de blogs que eu adoro!

E assim passamos uma ótima semana:

1º Dia: sessão de queijos e vinhos (não encontrei foto)


2º Dia: sarda e anchova no sal grosso (foto péssima: peixe morto é pouquíssimo fotogênico)

3º Dia: camarão na churrasqueira - Receita lá do Sopa Vermelha, da Fá.


É tão fácil de fazer que a gente chega a desconfiar: basta (e isso não é tão fácil assim quando estamos longe do litoral) ter camarões bem frescos!
Simplesmente divino!!! E a harmonização foi excelente!




4º Dia: sarda e anchova com recheio de farofa de camarão






5º Dia: espaguetti ao molho branco com camarão e gengibre









Ô saudade!... Não vejo a hora de voltar. Chega dezembro, chega logo!

terça-feira, 28 de setembro de 2010

(Belo) Horizonte para novas experiências gastronômicas...

Não tenho tido tempo e, consequentemente, vontade para me aventurar na cozinha...

A boa notícia é que nem por isso este blog precisa ficar longe da boa mesa! (Quem lê até pensa que sou expert cozinheira, rsrsrs...)

Desde o dia 20 de setembro (até o dia 03/10/2010) está acontecendo em BH o Restaurant Week. Um evento que tem como proposta democratizar a alta gastronomia, possibilitando que mais pessoas experimentem, e que fiquem com gostinho de quero mais, lógico! Ou seja: bom para os restaurantes, que tem a chance de ampliar a clientela, e ótimo para nós - simples mortais - que temos a chance de conhecer locais, chefs e uma culinária mais sofisticada!

A estratégia é oferecer menus especiais (entrada + prato principal + sobremesa) por preços reduzidos em todos os restaurantes: R$ 28,50 no almoço e R$ 40,00 no jantar, por pessoa.

Esta idéia nasceu lá em Nova York, em 1992, e deu tão certo que acabou se espalhando...

Em BH, nesta primeira edição do evento, 30 casas aderiram. O segredo é saber escolher, já que nem todas toparam reduzir consideravelmente seu lucro e por isso desenvolveram um menu específico com ingredientes mais baratos... (mas isso já é tema para outra hora!)

Este certamente não é o caso do Hermengarda, como você pode conferir aqui.

Chef Guilherme Melo e seu menu para o RWBH
foto do Divirta-se

Tive a sorte (mistura de pouquinho de intuição e com anteninhas ligadas) de escolher - na verdade, cismar -de conhecer este restaurante que eu já namorava há um tempinho (eu trabalho pertinho) e fui muito feliz! Fomos felizes, na verdade, já que além do marido lindo, acabei combinando a ida lá com duas amigas queridas - uma aniversariante da véspera - com seus respectivos! Reservamos portanto uma mesa para 6 pessoa na última sexta-feira!

O atendimento foi perfeito desde a mesa escolhida na parte coberta, mas ao lado da jabuticabeira, passando pela simpatia do chef que recebe pessoalmente cada cliente, até os garçons atenciosos e atentos!

O menu, simplesmente divino, consistiu de cogumelos recheados com linguiça defumada (entrada), lombo ao molho de cupuaçu e farofa com damasco e azeitona (prato principal) e goiabada envolta em castanha de caju sobre catupiry (sobremesa, bem mineirinha!).

Acompanhamos tudo com um vinho Malbec argentino, que coincidentemente eu já andava de olho, o Finca La Linda, que agradou a todos - em diferentes níveis. Eu achei muito bom! E apesar de ser um dos mais baratos da carta (R$ 60), acaba contribuindo para pesar no bolso... mas fazer o quê? Não dá para resistir!

Só posso dizer que valeu muito a pena! Deliciosa comida, excelentes companhias, boa conversa, ótimo vinho, atendimento perfeito e ambiente agradável e aconchegante!

Para mais detalhes, visite o post do Eduardo Girão, também com fotos!

Não parei por aqui... em breve outras experiências gastronômicas!

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

No mês dos pais...

Especialmente ao meu pai, pelo seu aniversário hoje...

Uma pequena homenagem...


"(...)

- Vou contar-lhe uma história.
E falou de um incerto pai que não sabia dar tamanho amor pelo seu filho. Certa vez registrou-se um incêndio no casebre em que viviam. O homem pegou no menino ao colo e se afastou da tragédia, caminhando pela noite fora. Deve ter superado o limite deste mundo pois quando, por fim, decidiu colocá-lo no chão, reparou que já não havia terra. Restava um vazio entre vazios, rompidas nuvens entre desmaiados céus. Para si mesmo, o homem concluiu:
- Agora, só no meu colo meu filho encontrará chão.
Nunca esse menino se apercebeu que o imenso território onde depois viveu, cresceu e fez filhos não era senão o regaço do seu velho progenitor. Muitos anos depois, quando abria a sepultura do pai, chamou o seu filho e lhe disse:
- Vê a terra, filho? Parece areia, pedras e torrões. Mas são braços e abraços.
(...)"

Mia Couto, Antes de Nascer o Mundo (pag. 50 e 51)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Sobre silêncios...

Sou uma pessoa muito reservada... ao mesmo tempo, sou muito falante quando me sinto à vontade. Mas gosto de momentos de silêncio.

O silêncio que eu mesma sou capaz de fazer, estando junto com alguém ou com várias pessoas já me incomodou muito. Estar em silêncio na presença do outro me deixava a sensação de que eu não tinha (ou não demonstrava ter) afinidade, simpatia, intimidade, amizade e sei lá mais o quê!

Hoje já entendo melhor o silêncio...

Achei interessante o fato de que algumas leituras recentes que fiz trouxeram a questão de maneira tão forte... Por isso resolvi compartilhar!



De Mia Couto, Antes de Nascer o Mundo:

"A família, a escola, os outros, todos elegem em nós uma centelha promissora, um território em que podemos brilhar. Uns nasceram para cantar, outros para dançar, outros nasceram simplesmente para serem outros.Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez.

Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios.

- Venha, meu filho, venha ajudar-me a ficar calado.

E era assim todas as noites (...). Depois, ele inspirava fundo e dizia:

- Este é o silêncio mais bonito que escutei até hoje. Lhe agradeço, Mwanito.

Ficar devidamente calado requer anos de prática. Em mim era dom natural, herança de algum antepassado." (pgs. 13 e 14)


De Isabel Allende, A Soma dos Dias:

"Janeiro chega depois de alguns meses sem escrever, nos quais vivi voltada para fora, na balbúrdia do mundo, viajando, promovendo livros, dando conferências, rodeada de gente, falando demais. Barulho e mais barulho. Mais que de qualquer outra coisa, tenho medo de ter me tornado surda, não poder ouvir o silêncio. Sem silêncio, estou em apuros." (pag. 12)

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Mia Couto: andei lendo...

Eu 'conheci' o Mia Couto através de uma blogueira-amiga-virtual, a Fabrícia, do Sopa Vermelha...

Vira e mexe ela posta uma imagem linda seguida de uma frase do Mia. Tudo com uma sensibilidade de emocionar!

Assim, um dia, me peguei em uma livraria sorrindo, de orelha a orelha, ao me deparar com um livro dele! Nunca tinha procurado, mas quando o encontrei, sem querer, senti uma alegria como se tivesse encontrado algo que procurava com fervor! Mesmo assim não comprei o livro na hora... Eu sou assim... Insegura, indecisa... e quase nunca faço compras por impulso! Mas o marido lindo observou a cena, perguntou, quis saber e dois dias depois me presenteou com o livro "Antes de Nascer o Mundo".

O livro é simplesmente delicioso, uma história inusitada, entre sonho e realidade, que causa estranheza e traz consigo mensagens e reflexões profundas, atuais, mas que não são óbvias. Eu realmente adorei o livro! Algumas vezes quis dar colo ou oferecer o meu ombro aos personagens, entendendo-os apesar de vivermos em realidades tão distintas...

Deixo aqui algumas citações, bem poucas, perto de tantas que me tocaram... (os negritos são meus! rsrsrs...)


"Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez.
(...)
- Venha, meu filho, venha ajudar-me a ficar calado.
E era assim todas as noites (...). Depois, ele inspirava fundo e dizia:
- Este é o silêncio mais bonito que escutei até hoje. Lhe agradeço, Mwanito.
Ficar devidamente calado requer anos de prática. Em mim era dom natural, herança de algum antepassado." (p. 13 e 14)

"Viver? Ora, viver é cumprir sonhos, esperar notícias." (p. 22)

"Velhice não é idade: é um cansaço." (p.22)

"Sentado ao volante da desfalecida máquina, eu podia ter inventado viagens infinitas, vivenciado distâncias e cercos. Como faria outra qualquer criança, poderia ter dado a volta ao planeta, até que o universo inteiro me obedecesse. Mas isso nunca sucedeu: o meu sonho não aprendera a viajar. Quem viveu pregado a um só chão não sabe sonhar com outros lugares" (p. 24)


"- Escrever no baralho?
- Há outro papel por aqui?
- Mas com o baralho que jogamos?
- Exactamente por isso: o pai nunca irá desconfiar. Já fazemos batota no jogo. Agora, faremos batota na vida.
Foi dessa maneira que estreei o meu primeiro diário. Foi também assim que ases e valetes, damas e reis, duques e manilhas passaram a partilhar os meus segredos. Os rabiscos minúsculos encheram copas, paus, ouros e espadas. Nesses cinquenta e dois quadradinhos verti uma infância de queixumes, esperanças e confissões. No jogo com Ntunzi, sempre perdi. No jogo com a escrita, perdi-me sempre." (p. 42 e 43)

- Estou cansado, pai.
- Cansado de quê? Se você não faz nada, de manhâ à noite?
-Não viver é o que mais cansa. (p.65)


"Não chegamos realmente a viver durante a maior parte da nossa vida. Desperdiçamo-nos numa espraiada letargia a que, para nosso próprio engano e consolo, chamamos existência. No resto, vamos vagalumeando, acesos por breves intermitências." (p.115)

"Vês como fico pequena quando escrevo para ti? É por isso que eu nunca poderia ser poeta. O poeta se engrandece perante a ausência, como se a ausência fosse o seu altar, e ele ficasse maior que a palavra. No meu caso, não, a ausência me deixa submersa, sem acesso a mim.
Este é o meu conflito: quando estás, não existo, ignorada. Quando não estas, me desconheço, ignorante. Eu só sou na tua presença. E só me tenho na tua ausência. Agora, eu se. Sou apenas um nome. Um nome que não se acende senão na tua boca." (p.132)

"Perseguida pelo medo da velhice, deixei envelhecer a nossa relação. Ocupada em me fazer bela, deixei escapar a verdadeira beleza, que apenas mora no desnudar do olhar. O lençol esfriou, a cama se desaventurou. Esta é a diferença: a mulher que encontraste aí, em África, fica bela apenas para ti. Eu ficava bela para mim, que é um outro modo de dizer: para ninguém.
É isso que essas negras têm que nunca podemos ter: elas são sempre o corpo inteiro. Elas moram em cada porção do corpo. Todo o seu corpo é mulher, todo o seu tempo é feminino. E nó, brancas, vivemos numa estranha transumância: ora somos alma, ora somos corpo. Acedemos ao pecado para fugir do inferno. Aspiramos à asa do desejo para, depois, tombarmos sob o peso da culpa." (p. 135)

"-És parecida com a Terra. Essa é a tua beleza.
Era assim que dizias. E quando nos beijávamos e eu perdia respiração e, entre suspiros, perguntava: em que dia naceste? E me respondias, voz trémula: estou nascendo agora. E a tua mão ascendia por entre o vão das minhas pernas e eu voltava a perguntar: onde naceste? E tu, quase sem voz, respondias: estou nascendo em ti, meu amor. Era assim que dizias. Marcelo, tu eras um poeta. Eu era a tua poesia. E quando me escrevias, era tão belo o que me contavas que me despia para ler as tuas cartas. Só nua eu te podia ler. Porque te recebia não em meus olhos, mas como todos o meu corpo, linha por linha, poro por poro."(p.136)

"Ao contemplar a queimada na savana, me veio uma saudade dessa troca de fogo, o espelho do deslumbramento em Marcelo. Deslumbrar, como manda a palavra, deveria ser cegar, retirar a luz. E afinal era agora um ofuscamento que eu pretendia. Essa alucinação que uma vez sentira, eu sabia, era viciante como morfina. O amor é uma morfina. Podia ser comerciado em embalagens sob o nome: Amorfina." (p. 140)

"Era certo que a invasão da sensualidade negra era um sinal que os padrões de beleza se tornaram menos preconceituosos. A nudez da mulher negra, contudo, me conduzia ao meu próprio corpo. Pensando no modo como via o meu corpo concluí: eu não sabia estar nua. E dei conta: o que me cobria não era tanto o vestuário mas a vergonha. Era assim desde Eva, desde o pecado. Para mim, África não era um continente. Era o medo da minha própria sensualidade. Uma coisa parecia certa: se queria reconquistar Marcelo, precisava de deixar África emergir dentro de mim. Precisava de fazer nascer, em mim, a minha nudez africana." (p. 177)
"Aproximado disse que as ruas do bairro eram pequenas, bastante passeáveis. Eu que fosse por elas com meu pai, a ver se ele ganhava distracção. Hoje sei: nenhuma rua é pequena. Todas escondem infinitas histórias, todas ocultam incontáveis segredos." (p. 231)

"É por isso que te escrevo. Não há morte, nesta carta. Mas há uma despedida que é umpequeno modo de morrer. Lembras-te como dizia Zacaria? 'Tive as minhas mortes, felizmente, todas elas passageiras.' A minha única morte foi a de Marcelo. Essa, sim, foi o primeiro desfecho definitivo. Não sei se Marcelo foi o amor da minha vida. Mas foi uma vida inteira de amor. Quem ama, ama para sempre. Nunca faças nada para sempre. Excepto amar." (p. 241-242)